Laudos médicos não falham apenas por desconhecimento técnico. Muitas vezes falham por atalhos mentais. O pensamento automático, útil na prática clínica cotidiana, pode comprometer a análise pericial quando não é submetido a revisão crítica.
Em perícias judiciais, a diferença entre intuição e método define a solidez do nexo causal e a consistência do parecer. Advogados que compreendem essa dinâmica ganham vantagem estratégica.
Pensamento rápido: ferramenta clínica, risco pericial
O psicólogo e economista Daniel Kahneman, na obra Thinking, Fast and Slow, descreve dois sistemas mentais. O Sistema 1 opera de modo automático, intuitivo e veloz. O Sistema 2 é analítico, deliberado e exige esforço cognitivo.
Na medicina assistencial, o Sistema 1 salva tempo e vidas. O clínico identifica padrões com rapidez. Contudo, a perícia judicial não busca probabilidade diagnóstica, mas demonstração técnica fundamentada. Quando o perito se apoia apenas na impressão inicial, tende a confirmar a hipótese que primeiro lhe ocorreu. Surge o viés de confirmação.
Em laudos frágeis, observa-se conclusão antecipada, seguida de seleção parcial de dados que sustentam aquela hipótese. O exame documental se torna seletivo. Informações divergentes recebem menor peso interpretativo.
Nexo causal não se presume: exige fundamentos técnicos
Afirmar nexo de causalidade por similaridade com outros casos constitui erro metodológico. Cada processo possui cronologia própria, condições individuais e fatores concorrentes.
Para sustentar nexo causal com segurança técnica, o perito deve avaliar, ao menos:
Nexo temporal: compatibilidade cronológica entre exposição e manifestação clínica.
Compatibilidade fisiopatológica: coerência entre o agente alegado e o mecanismo da doença.
Exclusão ou ponderação de causas alternativas: análise de fatores pessoais, doenças prévias e riscos extralaborais.
Consistência documental: prontuários, exames complementares e evolução clínica.
Coerência epidemiológica: plausibilidade segundo literatura reconhecida, quando aplicável.
Intensidade e duração da exposição: não basta a existência do agente; importa o nível e o tempo de contato.
Sem essa estrutura, a conclusão tende a se apoiar em impressão subjetiva. O laudo pode até aparentar segurança formal, mas carece de sustentação técnica.
Exemplo prático: quando o atalho mental prejudica a parte
Exemplo hipotético: trabalhador com lombalgia crônica atribui o quadro a atividade de carga manual. O perito oficial conclui por nexo ocupacional com base na função exercida e na queixa persistente.
Ao examinar os autos com método analítico, o assistente técnico identifica: histórico prévio de hérnia discal documentada antes da admissão, ausência de registro de afastamentos iniciais, prática regular de atividade física de alto impacto e exames que demonstram degeneração discal difusa compatível com faixa etária.
A análise não exclui, de forma automática, a contribuição laboral. Contudo, exige ponderação. Se o laudo oficial ignora esses elementos, abre espaço para impugnação técnica consistente. O advogado que dispõe de parecer estruturado consegue demonstrar fragilidade metodológica, não apenas divergência de opinião.
Impacto estratégico para advogados
O advogado não precisa dominar fisiopatologia complexa. Precisa, isso sim, identificar sinais de que o laudo foi construído com predominância de raciocínio automático. Entre esses indícios estão conclusões extensas sustentadas por fundamentação breve, ausência de discussão de causas alternativas relevantes, emprego de expressões genéricas como “é comum que” ou “frequentemente associado” sem adequada individualização do caso concreto e falta de análise cronológica minuciosa dos fatos clínicos e laborais.
Quando esses indícios aparecem, a contratação de assistente técnico deixa de ser custo e passa a integrar estratégia probatória. O parecer técnico bem fundamentado pode subsidiar quesitos suplementares, impugnações e esclarecimentos ao juízo.
Importante ressalva: parecer técnico não assegura resultado processual. O que ele oferece é qualificação do debate probatório e redução do risco de decisão baseada em premissas frágeis.
Orientações práticas para médicos peritos
Ao redigir o laudo, recomendo adotar roteiro objetivo. O perito deve descrever fatos e documentos antes de apresentar conclusões, explicitar hipóteses concorrentes e justificar a exclusão de cada uma, separar dados objetivos de interpretação técnica e indicar, quando presentes, os limites da própria conclusão.
Esse procedimento aciona o Sistema 2 descrito por Kahneman. Exige mais tempo, porém fortalece o trabalho e reduz a probabilidade de questionamento judicial.
Perícia não é consulta clínica ampliada. É ato técnico voltado à formação do convencimento do magistrado. A lógica deve prevalecer sobre a impressão.
Laudos frágeis raramente decorrem de má-fé. Decorrem, em muitos casos, de raciocínio automático não revisado. Em matéria pericial, intuição não basta; método decide.
Advogados que reconhecem essa diferença atuam de forma mais estratégica. Médicos que estruturam o raciocínio fortalecem sua credibilidade.
Se deseja aprofundar esse tema ou avaliar tecnicamente um laudo específico, entre em contato. Também convido à leitura de outros artigos do blog, nos quais analiso aspectos práticos da prova pericial médica e seus reflexos no processo.

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